Iniciativa
CNSeg - Confederação Nacional das Seguradoras

Os espaços alcançados pelas mulheres no Mercado de Seguros

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Instituído pela Organização das Nações Unidas – ONU, em 1977, o Dia Internacional da Mulher é celebrado em todo o mundo com o fim de impulsionar debates sobre a igualdade de direitos e de reconhecer as conquistas sociais, políticas e culturais das mulheres. “Invista nas mulheres: acelere o progresso″, é o tema que norteia as ações da ONU no dia 08 de março deste ano. No Brasil, o mercado de seguros é composto por mais mulheres do que homens. No entanto, apesar do setor ter passado por grandes avanços nos últimos anos, as empresas ainda precisam investir em políticas de diversidade para avançar em relação à composição dos cargos de chefias e à remuneração feminina.

 

As mulheres no mercado de Seguros

Segundo dados disponibilizados no Relatório de Sustentabilidade, elaborado pela CNseg, em 2022, as mulheres representam 52,3% da força de trabalho no setor segurador. O estudo conta com informações das 45 seguradoras associadas, que correspondem a 75% da arrecadação total de prêmios do mercado de seguros.

De 2021 para 2022, houve expressivo crescimento no número de empresas que adotam políticas ASG em seu planejamento, subindo de 86,4% para 93,5%. Destas, 100% adotam práticas de promoção da diversidade e não-discriminação, focando no pilar de gênero.

  • Das 56,7% empresas que são signatárias de pactos de Diversidade e Inclusão, 92,3% são signatárias do ONU Mulheres – Women Empowerment Principles;
  • Cerca de 46% das companhias avaliadas têm metas para ampliar a participação de mulheres em cargos de gestão;
  • Atualmente, a composição de cargos no mercado de seguros é formada por 38,6% mulheres em cargos de gerência e superintendência; 21,2% em cargos de diretoria; e 16,1% compondo Conselhos de Administração;
  • Apenas 26,7% das empresas têm metas para reduzir a diferença entre os salários recebidos por homens e mulheres;
  • A média salarial dos homens continua discrepante, sendo 35,4% maior do que a das mulheres, significando uma diferença salarial média de R$3.941,90.

 

Precursoras do setor “Galeria Feminina” da Revista de Seguros

 Se hoje as mulheres configuram mais da metade da força de trabalho que compõem o setor, nem sempre houve a preocupação em mensurar estes números. Isto porque o mercado de seguros era inquestionavelmente um espaço formado por homens.

No entanto, algumas mulheres transpuseram os paradigmas limitantes de seu tempo e pavimentaram o caminho feminino na área. Ainda na década de 1950, a Revista de Seguros teve participação essencial na divulgação de trabalhadoras que abriram as portas do setor, conquistando o seu espaço em um mercado predominantemente masculino. Durante todo o ano de 1956, a cada edição, a revista trazia a coluna intitulada “Galeria Feminina”, contando a história e a trajetória de algumas destas mulheres.

A partir das entrevistas, é possível perceber que a maioria das mulheres iniciava sua vida profissional atuando como professoras em escolas normais e que, para a maioria delas, os concursos públicos foram uma forma de entrar no mercado de trabalho.

 

Lilia Campos de Oliveira ingressou no IRB pelo concurso de auxiliares realizado em 1945. Iniciou a carreira no instituto como auxiliar de um dos Assessores Técnicos e, depois de três anos, com a criação da Carteira de Operações com o Exterior e a necessidade de alguém com experiência em línguas estrangeiras (possuía curso de línguas anglo-germânicas e inglês, com certificado de Cambridge), virou assistente. Em 1954, com a transferência de seu chefe, assumiu a chefia da Carteira de Operações com o Exterior. Durante um estágio de 6 meses em Londres, visitou várias seguradoras e resseguradoras locais, e de outras cidades europeias, como Paris, Genebra, Zurich, Viena, dentre outras. (Revista de Seguros, abril de 1956, p. 577).

 

 

Dulce Pacheco da Silva ingressou por concurso público no IRB, em 1945. Trabalhou primeiro no Gabinete do Departamento Técnico, como secretária, e depois ingressou na Divisão de Ramos Diversos. Quando da publicação de seu perfil, atuava como Assessora Técnica da Divisão de Operações Especializadas do Instituto, trabalhando com as Carteiras de Automóveis, Operações com o Exterior, Resseguros Agrícolas e Riscos Diversos. (Revista de Seguros, junho de 1956, p. 691).

 

 

 

Margarida Sim Caldas começou no setor segurador em 1939, na renovação do setor ocasionada pela criação do IRB. Neste momento, ingressou na empresa Assiscurazioni Generali. Com o fim da companhia, ingressou na Segurança Industrial, onde se especializou no ramo incêndio. Gerente da agência paulista A Nacional – Cia. Brasileira de Seguros Gerais e dirigente da produção da sucursal em São Paulo – Segurança Industrial, participava também da diretoria do Sindicato dos Empregados em Empresas de Seguros Privados e Capitalização do Estado de São Paulo”. (Revista de Seguros, agosto de 1956, p. 73).

 

 

 

Inah Morse Morrissy prestou o primeiro concurso do IRB, em 1940. Ao ingressar, inicialmente trabalhou no Arquivo Geral e, três anos mais tarde, trabalhou no Gabinete do Departamento Técnico, colaborando com os estudos para a criação da Carteira Acidentes Pessoais, onde atuou primeiro como sub-chefe e depois como assistente. Quando da publicação da coluna, era chefe da Seção de Recebimento e Controle, substituindo a chefia da carteira em seus impedimentos. Representava o IRB como membro da Comissão Permanente de Acidentes Pessoais. (Revista de Seguros, outubro de 1965, p. 187).

 

 

Novos perfis: Rosa Garfinkel e Beatriz Larragoiti

 Todas estas histórias vitoriosas se deram num contexto complexo, onde os anseios da mulher eram anulados e estavam totalmente vinculados aos interesses do marido. Tanto a sociedade, quanto a legislação da época reforçavam valores altamente tradicionais, especialmente com relação à família e a poderes maritais. Somente alguns anos após ser publicada a “Galeria Feminina”, em 1962, através do Estatuto da Mulher Casada (Lei nº 4121/62), esse panorama começou a mudar. A alteração de mais de dez artigos do Código Civil, entre outras mudanças, deu à mulher o direito de trabalhar sem a necessidade de prévia autorização do marido.

Foi também nesse momento de transformação, marcado pelos debates em torno da igualdade de direitos, que se destacaram dois grandes nomes femininos do seguro. A ascensão de Rosa Garfinkel e Beatriz Rosa Sanchez de Larragoiti Lucas à presidência de duas grandes empresas, dois cargos de liderança, representou um marco da inserção das mulheres no mercado de seguros nos anos 1970 e 1980.

Química formada pela Universidade de São Paulo nos anos 1940, Rosa Garfinkel é parte relevante da história da Porto Seguro. Em 1978, após o falecimento do seu marido Abrahão Garfinkel, assumiu a presidência da companhia ao lado de seu filho, Jayme Garfinkel, então vice-presidente. Rosa Garfinkel permaneceu nesta posição até 2006, período de grandes desafios e de grande crescimento da empresa. Em 2002, Rosa Garfinkel recebeu o título de “Mulher de Seguro da Década”, concedido pela Revista Seguros e Riscos. Aos 102 anos de idade, quando faleceu em 2018, era a Presidente de Honra da Porto Seguro. Rosa Garfinkel foi uma grande líder envolvida no cotidiano da empresa por 40 anos.

Beatriz Rosa Sanchez de Larragoiti Lucas ao longo da sua trajetória profissional trabalhou como intérprete em reuniões patrocinadas pela Unesco, na França, onde vivia com o seu marido, Jean Claude Lucas. Bisneta de Joaquim Sanchez de Larragoiti, fundador da SulAmérica, ingressou em 1982 no Conselho de Administração da empresa, guiando a companhia durante um dos períodos mais desafiadores de sua história. Em 1990, Beatriz Larragoiti foi a primeira mulher da América Latina a receber do tradicional Clube de Seguradores, presidido pelo professor Theophilo de Azevedo Santos, o título de “Segurador do Ano”, tendo recebido também da Academia Nacional de Seguros e Previdência – ANSP o Prêmio Seguro & Riscos, em 1999. Beatriz Larragoiti faleceu em outubro de 2004. No ano seguinte, foi homenageada pela ANSP, in memoriam, por suas contribuições para o desenvolvimento da atividade seguradora no país.

 

A organização das mulheres nos anos 1990

As mulheres foram aos poucos buscando novos espaços no setor de seguros. Em meados da década de 1990, um grupo de mulheres que se conheceu em viagem de treinamento, percebeu a importância da união entre elas para a troca de experiências e networking. em 2004, já com uma homepage e com a coluna “Fala Mulher”, o grupo ganha mais visibilidade.  Com a evolução, reconhecimento e ampliação de suas atividades, no segundo semestre de 2018 é fundada a Associação de Mulheres do Mercado de Seguros (AMMS), também conhecida como Sou Segura. A associação colabora para a transformação do setor, contribuindo para um maior equilíbrio na ocupação de cargos. De acordo com o grupo, “A Sou Segura é constituída de representantes de todos os intervenientes do mercado, ou seja: segurados, seguradoras, resseguradoras, corretoras, prestadoras de serviços e demais instituições do mercado”.

 

Por mais avanços

Desde então muito se evoluiu. Mesmo com todos os avanços, o mercado de seguros ainda pode melhorar a composição dos cargos de liderança em prol da diversidade e promover a redução da desigualdade salarial. É necessário que mais empresas reconheçam esta disparidade e busquem políticas inclusivas. Que o dia 08 de março represente um momento de profunda reflexão para o setor, assim como insiste a campanha da ONU 2024 – “Invista nas mulheres: acelere o progresso″.

 

Publicado em 08.03.2024

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